domingo, 30 de janeiro de 2011

COMEÇA A POLITICAGEM BUSÓLOGA



As artimanhas do poder surgem na surdina. Poucos percebem. Crédulos surgem, achando que o grupo politiqueiro emergente representa "o novo", sem perceber se eles de fato defendem a justiça social ou o interesse público.

Há grupos políticos que defendem o interesse público, mas eles são raros e eventuais. Não é o caso dos que defendem a padronização visual dos ônibus, medida que na verdade é um carro-chefe de todo um processo politiqueiro de concentração de poder das Secretarias de Transporte, sob o pretexto de "disciplina" que foi o mesmo utilizado pelos generais quando instauraram a ditadura militar, em 1964. Alias, não é à toa, afinal os ônibus tornam-se fardados.

Aí, de repente, surgem defensores do nada, que tentam desqualificar discordâncias, porque sabem que vão ganhar alguma vantagem por trás de tal defesa. No Rio de Janeiro, costura-se uma aliança entre busólogos e autoridades, sobretudo nas pessoas do prefeito carioca Eduardo Paes e do governador fluminense Sérgio Cabral Filho, além de dirigentes esportivos e alguns empresários de ônibus envolvidos.

Diga-se alguns, porque a maioria dos empresários de ônibus está indignada, mas nada pode fazer. Afinal, a padronização visual é um projeto para turista ver, enquanto que essa conversa de que tal processo é "tendência mundial" não passa de uma grande lorota.

Tanto é uma lorota que Londres, a célebre capital inglesa e sede das Olimpíadas do próximo ano, que dava a falsa impressão de adotar a padronização visual nos seus ônibus, promove a diversificação visual nas suas empresas. Para quem duvida, melhor ir para este linque.

É evidente que surge aí um esquema de politicagem. Não vamos dar maiores detalhes, mas é a mesma coisa que aconteceu quando as elites da USP se ligaram a políticos vindos do MDB para compor o PSDB, se consistindo no grupo composto pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e o candidato derrotado à presidência da República, José Serra.

O mesmo PSDB que inventou Eduardo Paes. Que brigou com seu mentor político, César Maia, mas levou sua formação demotucana para o PMDB. E que costura sua base de apoio nas políticas elitistas, que apenas dão uma aparente impressão de eficácia administrativa.

Daí a concentração de poder da Secretaria de Transportes no sistema de ônibus carioca, claramente expresso no visual fardado em que a expressão "Cidade do Rio de Janeiro" aparece em destaque, em detrimento ao nome quase apagado de cada empresa envolvida (e que, dependendo do caso, é impossível de ser visto pessoalmente em certos ângulos de luz e, nas imagens de "jpg", "gif" e similares, torna-se totalmente irreconhecível).

Quando o plano arbitrário de Paes foi lançado - claramente inspirado no modelo que Jaime Lerner lançou em Curitiba, quando prefeito "biônico" (interventor nomeado pelos generais) no auge do governo militar - , o descontentamento foi praticamente geral. No entanto, alguns descontentes foram mudando suas posturas, de maneira tendenciosa.

Essa adesão não foi porque o projeto demonstrou ser mais vantajoso. Não é. Nem para os passageiros, que terão dificuldades de identificar cada ônibus que irão pegar, nem para os empresários, que até para promover a imagem de suas empresas perderão a chance. Tanto que as empresas de ônibus cariocas custam a repintar seus ônibus, na esperança de que alguma medida judicial cancele a padronização, que tirará a liberdade operacional das empresas de ônibus.

O problema é que, num processo de politicagem, alguns defensores de privilégios e de poder concentrado - nem sempre assumem tais intuitos - têm que cercar de adeptos e defensores, por isso em cerimônias eles têm que tratar bem os busólogos, para assim conquistarem seguidores. Ninguém consegue privilégios de poder sem ter uma base de apoio.

Tudo visando a aparência de eficácia, pouco importando o sofrimento de passageiros, principalmente idosos e deficientes. A dificuldade de reconhecimento dos ônibus será bem maior, e isso não é conversa de infantil, desinformado ou retardado.

Afinal, os ônibus só serão reconhecidos quando os passageiros estiverem nos pontos e virem os ônibus de frente, mas se eles estiverem a uma distância de pelo menos cem metros, não vai dar para os passageiros correrem atrás, porque não saberão qual será o ônibus certo, com tantos ônibus visualmente parecidos.

Isso é fato. Mas quem está com as elites não quer saber de lógica, nem de ética, nem de coerência, nem de coisa alguma a não ser qualquer pretexto que justifique sempre o que é estabelecido e decidido de cima, o que está pré-determinado é o que vale, pouco importa se os cidadãos sofrem ou não, embora em tese eles sejam "beneficiados", o que é pura falácia.

Em mais de um século de existência, somente agora os ônibus do Rio de Janeiro começam a viver seus tempos de "República Velha".

6 comentários:

  1. Exatamente, Londres tirou a máscara da encampação branca: segundo Leonardo Ivo, só serve para fazer politicagem e, fatalmente, haverá quando houver troca de Prefeito.

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  2. Seu blog é muito bom, você tem um entendimento pouco visto nos blogs, entretanto, você bate muito no governo; parece mais um militante do PSTU.
    Pense no assunto: quantas vezes você já mencionou que a padronização é um reflexo da ditadura?
    Acredito que, com sua visão, você pode expandir muito mais as pautas, não deixando de lado a politicagem suja que tanto conhecemos,mas não fazendo disso o assunto principal.
    Ewerton Morais

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  3. Eu procuro diversificar as pautas, sim, apenas coincide que as ênfases se voltam para o problema da politicagem. Sei que parece incômodo, mas veja-se no lado de quem vive nas comunidades pobres da Baixada Fluminense, tem um parente doente e quer ir para um hospital na Penha. Vai para o terminal da Pavuna e por descuido pega o 779 para Madureira em vez do 942 para a Penha, por conta do mesmo visual.

    Imagine o povo vivendo transtornos como estes, enquanto uma minoria de busólogos fica feliz com o "novo" projeto de Eduardo Paes.

    Por isso a ênfase. É porque praticamente eu sou o único a escrever isso. Não fosse eu, no Google Jaime Lerner e Eduardo Paes seriam vistos como "socialistas" com seus projetos para o transporte coletivo.

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  4. Há de se anotar que, embora haja uma pseudo concentração de poder na Secretaria Municipal de Transportes e os empresários de ônibus estejam fingindo estarem descontentes só porque tem que pintar seus ônibus com o xexelento padrão "Cidade do Rio de Janeiro" (não o de suas empresas), os empresários continuam ganhando rios de dinheiro, não precisando sequer botar ar condicionado (que ficou de fora dessa licitação mandrake do prefeito paespalhão). Sem contar que os tecnocratas que mandam não são os políticos: são os próprios empresários, que financiam as campanhas do prefeito e dos vereadores, e com isso mandam nos políticos com mandato e seus nomeados.

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  5. Se preocupam com pintura tirando violentamente a tradição de algumas empresas (em especial a São Silvestre), mas, isso aí...

    Lavo as mãos com o ar-condicionado embora não tenha nada contra desde que seja usado corretamente e não brigue com a gratuidade como acontece com algumas administrações aí.

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