terça-feira, 5 de outubro de 2010

PADRONIZAÇÃO VISUAL E SEU CONTO DE FADAS



Há poucas pessoas que surgiram defendendo a padronização visual dos ônibus do Rio de Janeiro, e que falam "mil maravilhas" do sistema tecnocrático de ônibus de Curitiba e São Paulo. Um deles é um busólogo que produz um fotolog, do qual não citaremos seu nome, mas que chega a ser agressivo e irritadiço em suas declarações.

O que está em jogo, com o projeto a ser adotado por Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, é a prevalência do interesse privado sobre o interesse público, sob uma roupagem discursiva de "maior controle técnico e administrativo". É o princípio da tecnocracia, aliado aos interesses escusos da politicagem.

Esse filme já vimos. Como também sou estudioso de rádio, "panelinha" semelhante apareceu para defender, com a mesma fúria argumentícia, a dupla transmissão de programação AM numa repetidora de FM da mesma região. As mesmas alegações "técnicas", "econômicas", a mesma falsa defesa da cidadania etc. E tudo indo com os burros n'água, porque as rádios "AM + FM" não conseguiram dobrar sua audiência com isso.

Pior: sua audiência até diminuiu, numa média de pelo menos 25%, o que faz com que duas emissoras com a mesma programação chegassem a ter menos da metade da audiência que tinha quando era só transmitida em AM. E rádios que, em AM, tinham picos de audiência de 80% e ocupavam as primeiras posições no Ibope, em FM não chegam a ter 20% de audiência e arrastam, no máximo, na 16ª colocação. Mas a programação "AM em FM" insiste em permanecer, só para dizer ao mercado que não fracassou. O mercado desconfia...

Pois, assim como o rádio, o interesse público é usado como falso pretexto de medidas arbitrárias como a padronização visual.

Assim como a dupla transmissão AM/FM, ou a simples transmissão de programação AM só em FM, dando rasteira em emissoras AM financeiramente mais pobres, usa como pretexto palavras lindas como "cidadania", "direito à informação", "prestação de serviço", "liberdade de imprensa", etc, o modelo "curitibano" do qual se apoia a padronização visual também fala em "rapidez no transporte", "melhor administração", "mais controle no serviço", "mais organização" etc.

E, como em todo fenômeno tecnocrático, a obsessão pela ideia de "racionalidade" - um mito que está associado às promessas de eficiência, transparência e disciplina - não impede que abordagens fantasiosas e subjetivistas, travestidas do pretexto técnico e do status quo político-administrativo, venham à tona.

Claro, quem defende esse modelo de transporte coletivo não anda de ônibus. E quer se julgar mais sabedor do transporte coletivo do que os passageiros. Vivem isolados nos seus escritórios, nos seus gabinetes, mas querem ser os senhores da vontade do povo. Tudo isso pode criar uma crise violenta de representatividade, mas isso é outra história.

O modelo curitibano de transporte, em primeiro lugar, aposta numa impossível e exagerada austeridade das secretarias de transporte, municipais e, em certos casos, estaduais ou metropolitanas (quando cobrem uma região de cidades). Segundo sua tese, as secretarias seriam sempre capazes de controlar o sistema, evitando transtornos ou, havendo os mesmos, resolvendo-os perfeitamente.

Mesmo transtornos inevitáveis como o fato de passageiros pegarem os ônibus errados são vistos como "de fácil solução" por uma campanha maciça de esclarecimento e informação, que no entanto gera desperdício de dinheiro com panfletos e propaganda na imprensa e na mídia eletrônica e com um êxito potencial sempre abaixo do esperado.

Os passageiros é que terão, dentro da solução tecnocrática, de dobrar sua atenção o máximo possível antes de pegar um ônibus. No Rio de Janeiro, um simples esforço do carioca na Rua Primeiro de Março tentar diferenciar a linha 322 (Castelo / Ribeira) da 386 (Anchieta / Praça 15) pode fazê-lo perder o ônibus desejado, só porque ele buscou reconhecer o número da linha e do carro e, quando correu para o embarque, o ônibus deu arrancada.

As desvantagens são enormes e prejudiciais para os passageiros. Mas os defensores da padronização visual não querem saber. Eles sempre dizem que há solução. Tentam se julgar acima de correntes políticas, para não serem acusados de conservadores, reacionários ou mesmo fascistas e direitistas. Mas tais adjetivos lhes são inevitáveis, ante a reação irritada de vários deles, ante os interesses privados que eles, com toda a falsa alusão ao interesse público que fazem, defendem ou representam.

Eles vivem no mundo da fantasia. Mas essa fantasia, sob a roupagem da racionalidade, prevalece no demagogico discurso do perfeccionismo técnico e administrativo. Acham que não haverá problemas e que, se os houver, serão de fácil solução, e, se não são de fácil solução, estudos serão feitos para resolvê-los, e, se não adiantarem esses estudos, medidas urgentes serão feitas, ou, se nada for feito, só resta os adeptos da "curitibanização" dos ônibus xingarem quem está contrário a seus procedimentos.

O último recurso dos tecnocratas, quando nada lhes está a favor, é a baixaria. Imaginemos como eles reagirão, quando o projeto de padronização visual dos ônibus do Rio de Janeiro se demonstrar um fracasso de gigantescas proporções, o que é bastante provável.

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