sexta-feira, 3 de setembro de 2010

AS LIÇÕES DO CASO TRANSMIL


MONTAGEM SUGESTIVA PARA A ENTRADA DA BLANCO NO SETOR MESQUITA DA TRANSMIL.

No triste episódio da Turismo Trans1000, até agora sem desfecho, tiram-se lições de todo um contexto de crise de valores que se vive em nosso país. A primeira delas é a do conformismo. Se satisfazer com o pior é mais confortável, duvidando das soluções urgentes e melhores.

Torna-se mais cômodo deixar que a Transmil indefinidamente fique como está, enquanto trabalhadores da empresa ficam com salários atrasados, com péssimas condições de trabalho e direitos trabalhistas descumpridos. Torna-se mais cômodo esperar que a frota velha da empresa seja substituída por mais um resto de outras empresas, geralmente ônibus de terceira ou quarta mão, porque os de segunda mão já são muito caros para os padrões decadentes da empresa de Mesquita.

De repente surgiram mensagens de gente com medo de outras empresas, gente incomodada com as soluções drásticas propostas, gente desconfiada de qualquer outra empresa que opere as linhas da Transmil. Chegam mesmo a fazer marcação contra a Transportes Blanco, apontada por mim como sugestão para operar quatro linhas da Transmil do setor Mesquita e Nova Iguaçu.

Só que a solução apresentada é a mais realista. Nada tem a ver com bastidores de disputa empresarial. A sugestão da Blanco tão somente se baseou na medida adotada nos setores Queimados e Japeri, cujas linhas da Transmil foram transferidas para a Blanco. Se outras sugestões tivessem sido feitas, os conformistas se incomodariam do mesmo jeito.

Se pedisse a Evanil, uns diriam que se estaria sonhando demais. Se pedisse a Costeira, haveria reprovação por parte daqueles que não gostam do grupo Breda/Gol. Se pedisse a Tinguá, que teve seu dono morto, seria perigoso. Se pedisse a Nossa Senhora da Penha, seria audacioso, uma vez que vai além da área tradicional da empresa, que não inclui o centro do Rio. Se pedisse a Flores, seria aumentar o poderio desse grupo empresarial na Baixada.

Só que se pedisse a permanência da Transmil e esperasse pelo mesmo faz-de-conta de renovação de frota, sempre com os restos deixados por outras empresas, seria manter o mesmo risco, os mesmos suplícios, o mesmo perigo e os mesmos transtornos. Seria muito mais conformista, mas seria também manter a péssima situação atual. E já não seria mais péssimo, seria pior.

Pedir soluções drásticas muitas vezes assusta as pessoas tomadas de muito conformismo. Tem gente que não gosta da situação atual, mas acaba se conformando com ela. Diz que é por realismo, mas é por preguiça. Afinal, estamos nos aproximando da Copa de 2014 e até agora nem comprar ônibus adaptados para deficientes físicos a Transmil teve iniciativa. Existem exigências de âmbito nacional para a qualidade do transporte coletivo e a Transmil não se dispôs a cumprir qualquer uma delas.

A pressão que se faz contra a Transmil também se inspira na que muita gente fez contra a Transportes Oriental. A minha campanha contra a Transmil não se resulta de questões pessoais nem de qualquer raiva particular. Ela se baseia tão somente em artigos de imprensa, que por sua vez resultam de reclamações de passageiros.

Onde tem fumaça, tem fogo. Se alguns falaram que "não há provas" sobre irregularidades da Transmil, então por que a empresa está entre as que têm mais ônibus apreendidos pelo DETRO, uma coisa que acontece há vários anos, muito antes da minha campanha contra a empresa? A própria empresa se destaca negativamente nas ruas do centro carioca, na medida em que seus ônibus velhos e encardidos contrastam com os outros ônibus que percorrem logradouros como as avenidas Rodrigues Alves, Rio Branco e Pres. Antônio Carlos?

É só comparar, também, os comentários que muita gente faz a respeito da Transmil. Quase não há comentários elogiosos e, quando há, ou são tímidos, ou são ressalvas (como a simpatia de vários rodoviários da empresa e o esforço de mecânicos em pelo menos deixar os ônibus com os freios funcionando).

As mais conceituadas teorias da Administração e da Publicidade mostram que uma empresa que presta mal serviço compromete sua imagem no mercado, e tudo que ela deve é fazer a marca desaparecer.

Eu, pessoalmente, ainda considero a validade, a título de derradeira chance, da Transmil continuar operando a linha 651 Mesquita / Pavuna e o setor Nilópolis. Embora o ideal mesmo é dar a última chance da empresa nas linhas internas da Baixada, sem incluir o centro do Rio de Janeiro.

Mas alguma coisa tem que ser feita urgentemente, isso é verdade. E não será com carros usados "menos" velhos substituindo os carros usados mais velhos. Se for assim, vai continuar tudo na mesma. As mesmas reclamações tímidas, escondidas nos comentários do Fotopages, os mesmos riscos de passageiros e rodoviários, as mesmas apreensões do DETRO.

A Transportes Oriental também teve história (foi até uma das primeiras a comprar CAIO Amélia, há 30 anos atrás, e nos anos 90 operou com ônibus Scania), mas ela foi traída por uma decadência operacional gritante, igualzinha à da Transmil.

Mas no caso da Oriental, houve gente que teve coragem de protestar, não somente com reclamações tímidas, mas com queixas e pressão. Ninguém se omitiu na sua queixa quase muda, e botou a boca no trombone. E a Oriental foi extinta, sendo substituída pela Expresso Pégaso, que tem até suas imperfeições, mas se esforça em renovar bem sua frota, e brindou as linhas 398 e S-14 (que ligam Campo Grande a Tiradentes) com novos ônibus com e sem ar condicionado.

Pede-se às linhas da Transmil apenas isso: a substituição por uma outra empresa que abasteça sua frota com carros novos e confortáveis, em vez da eterna mesmice de comprar migalhas de outras empresas.

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