segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PADRONIZAÇÃO VISUAL DOS ÔNIBUS ESTÁ COM OS DIAS CONTADOS



A tese parece um delírio de busólogo pouco influente, mas na verdade é fruto de uma análise comparativa entre vantagens e desvantagens de certas medidas do transporte coletivo. E mostra uma realidade que muitos passageiros sentem concretamente nas ruas, mas que tecnocratas e busólogos chapa-branca se recusam, até com certa arrogância, a admitir: a decadência do modelo de padronização visual das empresas de ônibus no país.

Notícias sobre vários transtornos relacionados, direta ou indiretamente, à padronização visual, principalmente nas cidades de São Paulo e Curitiba, principais "vitrines" dessa medida no país, se multiplicam na imprensa, enquanto tecnocratas e busólogos chapa-branca tentam desconversar, dizendo que tais transtornos nada têm a ver com isso.

Mas o fato de empresas de ônibus se camuflarem num visual feito mais para confundir os passageiros e fazer propaganda das prefeituras das respectivas cidades, ou das regiões metropolitanas correspondentes - no caso de linhas intermunicipais - , causa desvantagens que nenhum tecnocrata consegue desmentir, e cujas reações de defensores da padronização visual tão facilmente vão das alegações inconvincentes a comentários irritadiços e desesperados.

Na padronização visual, diferentes empresas podem ter a mesma pintura, ou uma mesma empresa ter pinturas diferentes, ambos devido ao tipo de serviço adotado, o que camufla a empresa, cujo nome é colocado apenas de forma discreta em cada ônibus, enquanto expressões como "Cidade de Curitiba" e "Prefeitura de São Paulo" aparecem em destaque, em clara alusão publicitária das prefeituras das cidades.

A padronização visual é uma medida que se desgasta seriamente, tanto que, depois de Florianópolis - que adotava a padronização visual diferenciada por empresa, e não por serviço, mas depois decidiu pela diversidade visual - e Natal, a diversidade visual demonstra ser uma alternativa viável para os passageiros, e que em nada constitui numa poluição visual, como argumentam os tecnocratas do transporte coletivo.

CONCENTRAÇÃO DE PODER DO ESTADO - Entre as inúmeras desvantagens da uniformização visual, que na prática é apenas um detalhe de um projeto de transporte coletivo decadente, originário dos tempos da ditadura militar - quando o arquiteto Jaime Lerner tornou-se prefeito biônico de Curitiba, filiado à ARENA - , está sobretudo a concentração de poder das secretarias de transporte, principalmente através de paraestatais que, na prática, controlam o serviço de transportes, reduzindo as empresas privadas a simples "associadas".

As empresas privadas se limitam apenas ao aspecto técnico e financeiro do serviço de ônibus. A paraestatal controla as linhas e, mediante alguma pesquisa nas frotas de ônibus, agenda períodos de renovação de frotas.

A uniformização visual não permite que pessoas comuns identifiquem as empresas de ônibus e, em muitos casos, o risco de pegar o ônibus errado é altíssimo. Coisa que soluções tipicamente tecnocráticas como o serviço de identificação de ônibus pela telefonia, através do rastreamento por meio de telefone celular, não resolve. Afinal, a eletrônica não é a medida de todas as coisas, e a história da humanidade mostra que a tecnologia não é suficiente para substituir ou resolver todas as falhas humanas.

Somente tecnocratas e busólogos de porta-de-garagem, capazes de identificar de longe até o chassiz de um ônibus, conseguem identificar a empresa de ônibus em questão. O que faz com que, do contrário que os defensores da uniformização visual tão jocosamente dizem, a "profissão" de busólogo não se extingue com a uniformização. Pelo contrário, a busologia deixa de ser um hobby e passa a ser "profissão", pois somente "busólogos profissionais" passam a contemplar esse tipo de serviço.

Na prática, o serviço de transporte coletivo se elitiza. Autoridades se julgam super-homens capazes de controlar o sistema de ônibus nas grandes cidades. Paraestatais se julgam capazes de resolver os mais delicados problemas no transporte. Acham que aumentar o rigor da fiscalização das autoridades é sempre possível mesmo em medidas de êxito duvidoso como o sistema de "pool" nos ônibus (revelado um grande fracasso nacional) e na uniformização visual das frotas.

Mas esse discurso nós víamos, no plano geral de política de desenvolvimento nacional, nas promessas dos generais dos primeiros anos da ditadura militar, que se julgaram capazes de resolver todos os problemas da sociedade, com uma mentalidade que também contou com defensores entusiasmados, até depois mostrar suas desvantagens sérias, sobretudo depois da crise do petróleo no Oriente Médio, em 1973, que derrubou o então dito inabalável "milagre econômico".

Pois o "milagre busólogo" da uniformização visual pode durar alguns anos, mais pela teimosia de tecnocratas e autoridades do que pelo sucesso do esquema. O desgaste desse modelo de caraterização dos ônibus demonstra até mesmo o caráter anacrônico de uma filosofia estatal que exterminou os bancos públicos, mas quer controlar o sistema de ônibus com mão-de-ferro e vestindo as empresas de ônibus com verdadeiras "fardas" visando serviços específicos (sejam micros ou articulados, sejam linhas troncais ou alimentadoras etc).

Enfim, são desvantagens que são muito maiores do que as vantagens que, em tese, a uniformização visual traz (mas vantagens supérfluas, como a identificação de serviços e o controle disciplinar do Estado). Por isso, na medida em que novos técnicos e especialistas em transporte coletivo conquistam novas cadeiras, a mentalidade fardada do sistema de ônibus começa a perder terreno, com a decadência da padronização visual acontecendo a olhos vistos na nossa sociedade.

Por isso é que a padronização visual dos ônibus está com os dias contados. O povo das ruas já percebe isso. Mas os tecnocratas trancados nos escritórios, nas limusines e nos jatinhos particulares, ainda não. E como eles ainda estão no poder...

2 comentários:

  1. Lamento te informar, mas o prefeito do Rio, Eduardo Paes, acabou de renovar as concessões às empresas de ônibus que oferecem um serviço de mierda e, ainda por cima, quer padronizar a frota.

    Ele afirma que isso vai 'acabar com essa festa de cores nas ruas'.

    Eu concordo com seu post e fico triste porque nem a imprensa teve vontade de questionar isso. Deve ser porque ninguém pega ônibus.

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  2. Sou contra a uniformização dos onibus cariocas tambem, (na posição de carioca), mas não acho a pintura em sí das piores, contudo preferio as antigas porque eram agente facilitador de pessoas de todos o grupos, frisando os idosos a identificar o ônibus e a empresa a qual prescisa utilizar. e Pela intensificação do poder do Prefeito Eduardo Paes com suas poliicas unúteis, e muitas vezes quase corruptas.

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