quinta-feira, 22 de julho de 2010

O DESCASO PELOS MORROS (TEXTO DE 1925)


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Há 85 anos, a revista Fon-Fon já alertava sobre o risco de expansão das favelas, e pedia para a administração municipal olhar com carinho o problema, para que não causasse a degradação das paisagens do Rio.

No artigo, sobra até mesmo críticas à operadora de bondes do Rio de Janeiro, a Light, que desde 1960 deixou o setor e hoje está restrita à exploração de energia elétrica na cidade (por sinal, com o mesmo péssimo serviço, ante às explosões de bueiros na Zona Sul, uma delas em Copacabana, que feriu gravemente um casal de turistas estadunidenses).

O senão do texto é que a postura elitista da época (1925) faz o editorial pensar tão somente no embelezamento das paisagens dos morros, mas nada fala em medidas para assistir o povo miserável dos bairros.

Ainda assim, vale por curiosidade um texto destes, sobretudo ante a indiferença de um prefeito que, mais preocupado em fechar uma movimentada avenida e transformá-la em parquinho para o recreio das elites, se recusa em adotar medidas rigorosas e transformadoras para nossos subúrbios, se limitando a meros paliativos que em nada contribuem para eliminar as favelas através de novos conjuntos habitacionais, nem em qualquer real transformação social da periferia carioca.

O descaso pelos morros

Revista Fon-Fon - Editorial de Julho de 1925
Reproduzido do site da revista Época, com revisão de Alexandre Figueiredo

Além dos panoramas da Guanabara, sem rivais no mundo, a beleza do Rio reside quase toda no pitoresco dos morros que o cercam, guardas avançadas da majestade granítica de incomparável moldura de montanhas. Mas até hoje ainda não houve um prefeito que dignasse olhar com carinho para o problema, que é capital, do embelezamento dos nossos morros.

Arrasamos o do Senado e estamos acabando de arrasar o do Castelo. Contudo, será impossível arrasarmos todos e mesmo a isso se oporia a estética da cidade. A incúria municipal através de dezenas de lustros deixou em abandono os da Saúde, do Pinto, da Favela, do Livramento e da Conceição, que são hoje, em vez de pontos aprazíveis, coitos de desclassificados, ou bairros abjetos.

Os de Santa Teresa e Paula Matos, que têm progredido, quase exclusivamente graças à iniciativa particular, e que formam uma parte característica e quase aristocrática da nossa urbe, esses até agora não conseguiram da Prefeitura obras de espécie alguma e por ela estão entregues, manietados, a uma horrível, retrógrada, suja e desorganizada companhia de bondes, a qual só pode contribuir para deles afastar os moradores. O aspecto do de Santo Antônio é desolador e aqueles que se erguem para os lados de Catumbi, Vila Isabel, Andaraí e Tijuca, completamente abandonados, estão destinados a ser novas Favelas e novas Saúdes.

A lepra dos casebres e a devastação dos matos começa já a devastar todos quantos emolduram Copacabana e essa encantadora região da Lagoa Rodrigo de Freitas, que podia ser, com um pouco de boa vontade e administração honesta, um Lago de Como dentro da nossa cidade.

Dirão os defensores da municipalidade que é quase impossível levar água e vias de comunicação a todos os cerros verdejantes que apertam os bairros cariocas na sua cadeia de belezas naturais. De acordo. Pois então que a Prefeitura impeça a ereção de cabanas de bagaço e palha, de tugúrios de taipa, de casinholas de latas velhas em tão lindos recantos. Procure desapropriar esses terrenos que valem pouco preço, cercar a base dos morros desertos, de maneira a convertê-los em outros tantos parques selvagens, reservas de beleza, de arvoredos, de pássaros, de encantos naturais para a grande capital rumorejante estendida aos seus pés.

O que não se compreende é que se estrague esse patrimônio generosamente doado pela natureza, é que ao lado das ruas deliciosas e lindas de Ipanema, Copacabana, Lagoa, Leblon, Jardim, Botafogo se ergam os morros pelados pelas roçadas, com as feridas das pedreiras abertas a esmo e os agrupamentos miseráveis de cerbatas horríveis. Se a municipalidade posturas, por que e como consente sua casa de acordo com as leis e posturas, por que e como consente no levantamento de choupanas e casebres?

É tempo ainda e bem tempo de evitar para os melhores bairros do Rio a vergonha dos aspectos miseráveis dos morros, transformando-os em lugares aprazíveis à vista na sua selvatiqueza admirável.

O programa de defesa e embelezamento dos morros do Rio de Janeiro é tão momentoso e tão imprescindível, tão grande e tão belo, tão útil e tão vantajoso, que a sua execução é tarefa para cobrir de glória um prefeito que se decida a tratar dela, a executá-lo com energia e continuidade.

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