segunda-feira, 26 de julho de 2010

DESFAVELIZAÇÃO DO BRASIL


ROCINHA: UMA DAS MAIORES E MAIS PROBLEMÁTICAS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO, SITUADA NO CAMINHO ENTRE A ZONA SUL E ZONA OESTE.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Nosso blog, embora aparentemente se dedique exclusivamente ao trânsito de veículos, também se preocupa com questões de urbanismo e do bem estar da população. Por isso, encampamos também a campanha pela desfavelização, de forma a salvar ou recuperar não só a beleza paisagística dos morros de outrora, mas também recuperar a ecologia e permitir ao povo a inclusão imobiliária, tirando-o de moradias degradadas e transferindo-o para habitações mais dignas.

DESFAVELIZAÇÃO DO BRASIL

Por Inácio Strieder - Blog Recanto das Letras - 30.12.2009

Como o conceito "favela" evoca uma realidade desumana, há sugestões de que não se denomine mais os conjuntos favelados de "favela", mas de "assentamentos subnormais", o que teria conotação menos pejorativa.

Evidentemente, seria uma tremenda injustiça considerar todos os favelados como marginais, vagabundos, ou coisas que valha. A maioria dos moradores das favelas não está lá porque quer, mas porque não possui alternativas. Por isto mesmo, ao entrar em favelas, o que se presencia é uma ofensa à dignidade humana. E se ainda possuímos sensibilidade humana, naturalmente, se sente uma indignação política por não se colocar como prioridade das prioridades governamentais a desfavelização do país.

Isto demonstra uma incrível insensibilidade de nossos políticos, de nossos empresários, de nossos religiosos perante esta situação indigna de moradia da maioria da população favelada. Simultaneamente com os belos projetos de "fome zero", de "bolsa família", de "minha casa, minha vida", e tantos programas sociais e gestos de solidariedade pelo Natal, que, em geral, são puros paliativos, deveria nascer uma indignação nacional frente à permanência das milhares de favelas nas grandes e médias cidades brasileiras.

Pois, nenhum brasileiro, minimamente informado, ignora que as favelas são fonte, ou retrato, de múltiplos problemas sociais. Embora não em maioria, mas em grande parte, as pessoas faveladas estão psicológica e culturalmente desestruturadas, pelo ambiente perverso e desumano em que vivem. Psicologicamente vivem sem a tranquilidade de uma vida normal. A maioria vive angustiada com o seu futuro e o futuro de seus filhos. Grande parte das pessoas ali residentes não possuem relacionamentos familiares estáveis e tranquilos.

Muitas mulheres são induzidas à prostituição, ou à prestação de sub-serviços, sujeitando-se a uma sub-remuneração, e constantemente expostas à violência. Muitos homens desempregados perambulam de boteco em boteco, embebedando-se, a se drogar e prostituir, e gerando filhos sem responsabilidade. Pois estes são os seus únicos e principais divertimentos e prazeres.

A falta de inclusão comunitária leva à violência e à desordem. O desemprego e a falta de ocupação tornam os jovens vítimas fáceis da bandidagem, das drogas e de outros vícios. Faltam as condições e o estímulo para os valores humanitários. O ambiente nas favelas não favorece apenas a ignorância literária.

O "analfabetismo" que ali floresce é também de sãos costumes e trato social civilizado. A privacidade é praticamente impossível. A falta de espaço obriga os indivíduos a invadirem o espaço vital mínimo necessário a uma privacidade existencial.

Por isto a alta taxa de promiscuidade, de violência, de agressvidade que define as favelas. Assim se deve entender que a vida nas favelas não favorece nem uma vida humana digna, nem civilizada. Por isto o Brasil, caso queira ser considerado um país civilizado, em que haja um conceito positivo de seus políticos, do sistema judiciário e dos sentimentos humanos de seu povo, necessariamente, e de imediato, terá que propor um amplo projeto de desfavelização do país.

Quem não se indigna com 2.000 favelas em São Paulo, com 1.000 favelas no Rio de Janeiro, com 600 favelas na região metropolitana do Recife, e com outras centenas de favelas pelos centros urbanos de todo território nacional? Os mandatários deste País deveriam se envergonhar por não enfrentarem com o devido empenho este problema fundamental, que ofende a dignidade de todos os brasileiros, minimamente humanizados.
Não há dúvida que são louváveis outros projetos sociais, mas o primeiro e fundamental deveria ser a desfavelização do Brasil.

Enquanto isto não acontecer, nosso país continuará a ser visto pelo mundo civilizado, como um país corrupto, subdesenvolvido, um sub-mundo. Somente um Brasil desfavelizado nos permitiria viver de "cabeça erguida", pois isto nos permitiria alardear pelo mundo inteiro que aqui vivemos uma vida humana digna e humana, sem a precariedade de moradia de grande parte da população, obrigada a viver no sub-mundo de nossas favelas, que envergonha a todos. Mas é preciso também considerar que "favela" nem sempre é apenas um espaço geográfico. Muitas vezes "favela" também é um "estado de espírito". Mesmo nas coberturas de nossos prédios encontramos este tipo de "favela". Mas, sobre estas "favelas" refletirei em outra oportunidade.

Um comentário:

  1. Antes de falar desigualdades econômicas, corrupção política ou em injustiça social, digo que o problema da favelização é um problema de ordem MORAL. Um problema de raiz MORAL.
    Não é fácil lidar com isso, pois sempre que se diz esta verdade, escuta-se um "ui" aqui e um "ai" ali. É a turminha de frescos das esquerdas sempre defendendo sua ética dos fins justificarem os meios, de praticar-se uma injustiça para se obter uma virtual justiça.
    Seria muita ingenuidade supor que tais pessoas procurassem viver nas favelas por falta de consciência ou informação. Trata-se, certamente, de uma mentira deslavada ou uma afirmação inócua. O indivíduo procura a favela não por falta de alternativas, mas por pura e sabida malandragem. Ninguém é criança. Todo mundo sabe que a propriedade tem limites. Todo mundo sabe que nem tudo lhe pertence. Todo mundo sabe também que existem leis. Todo mundo sabe que a favela é reduto da criminalidade e do narcotráfico. Todo mundo tem noção dos riscos ao expor a vida de seus filhos em áreas de risco. Não é à toa que o comércio de drogas praticamente se confina nesses redutos.Não me parece fruto da ingenuidade das pessoas, mas astúcia daqueles que buscam coligir todas as vantagens possíveis em seus interesses egoísticos: a proximidade aos locais de trabalho, a bela vista, a notoriedade das favelas como redutos de traficantes, para quem os moradores vendem sua proteção a troco de benefícios espúrios, o recrutamento no “trabalho” do tráfico etc. É, pois, um estado assistencialista dentro do Estado. Só que este assistencialismo é feito com o dinheiro sujo que faz a desgraça de várias famílias de classe média.
    Numa reportagem realizada pelo Jornal "O DIA", estudo desenvolvido pelo Observatório Imobiliário e de Políticas do Solo, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippur), da UFRJ concluiu que "as pessoas não moram nas favelas porque é barato. Não são preços tão baixos. Ela está pagando por outra coisa que não só aquele produto: paga pela relação de vizinhança. É um estereótipo que a pesquisa desmonta", explica a geógrafa Andréia Pulici, pesquisadora do Ippur.

    Tampouco o indivíduo procura a favela por falta de opções:

    "Uma simulação feita em 2005 com moradores de 15 favelas cariocas mostrou que a maioria absoluta dos entrevistados não trocaria sua casa irregular por imóveis com escritura, mesmo situados em bairros mais valorizados. Nem mesmo se as moradias custassem o mesmo preço, situação possível no mercado imobiliário -- formal e informal -- da cidade."

    Televisão, geladeira, lavadora de roupa e DVD são bens de consumo presentes em grande parte das favelas.

    Cerca de 96% dos "pobres favelados" têm TV em cores, 55% possuem DVD e mais de 57% têm lavadora de roupas. Nas favelas, 15% dos moradores utilizam carro próprio e 2,4% têm empregada doméstica.
    O número de moradores com acesso à internet ainda não foi medido, mas a experiência do projeto Estação Futuro - uma espécie de cybercafé instalado em dez favelas do Rio - mostra o interesse da população pelo assunto. Em 18 meses, esses centros receberam cerca de 75 mil clientes. Eles pagam R$ 1 por hora para ter direito a mandar e-mails e a acessar a web.
    A pesquisa ainda detectou o interesse da população por marcas famosas de roupas e de cosméticos. "Quando a pessoa não pode comprar, ela usa uma réplica", afirma Coelho.
    Não é à toa que as consultoras da empresa de cosméticos Natura - aquelas que fazem a venda dos produtos de porta em porta - se multiplicam pelas favelas.
    Hoje em dia, na Rocinha, que está cheia de carros, já é. Como favela não tem garagem, as pessoas param onde podem.

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